CAMPO MULTIUSO DESABA APÓS INAUGURAÇÃO E REFORÇA CRÍTICAS À QUALIDADE DE INFRAESTRUTURAS NO BENGO

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A recém-inaugurada quadra desportiva no bairro Kingungo, na província do Bengo, transformou-se em motivo de revolta poucos dias após a sua abertura, depois do desabamento da sua estrutura metálica.

O espaço, inaugurado na sexta-feira, 3 de abril, era visto como um avanço para o desenvolvimento do desporto local. No entanto, o colapso da estrutura levantou sérias dúvidas sobre a qualidade da obra, os materiais utilizados e o processo de fiscalização.

O caso surge num contexto já marcado por críticas semelhantes na província. Recentemente, agentes desportivos no Bengo manifestaram preocupação com a qualidade da estrutura metálica e até com as dimensões de uma outra infraestrutura, o campo multiuso do Mifuma, em Caxito, apontando possíveis falhas técnicas e falta de rigor na execução da obra.

Diante disso, o desabamento da quadra em Kingungo reforça receios sobre a recorrência de problemas em infraestruturas públicas ligadas ao desporto na região.

O agente desportivo Jorge Capita, que afirma ter alertado previamente para possíveis falhas, sustenta que já existiam sinais claros de irregularidades durante a execução do projeto.

“Chamámos a atenção para os problemas na obra e chegámos a sugerir a suspensão dos trabalhos para a contratação de uma empresa capacitada, mas fomos ignorados”, afirmou.

Segundo Capita, durante visitas ao local foram identificadas deficiências na estrutura metálica, bem como falta de domínio técnico por parte da empresa construtora. O agente alerta ainda para o risco que a infraestrutura representava para os utilizadores.

“Houve momentos em que a própria equipa demonstrava dúvidas sobre as dimensões da quadra, o que evidenciava falta de competência para executar uma obra desta natureza. Se os alunos que participavam nos jogos escolares estivessem no local no momento do desabamento, poderíamos estar a falar de uma tragédia”, lamentou.

O entrevistado destacou ainda que a província do Bengo não dispõe de um pavilhão multiuso adequado para acolher competições oficiais, situação que obriga as equipas locais a realizarem jogos fora da província.

“Precisamos de infraestruturas dignas que permitam às nossas equipas competir diante do seu público”, defendeu.

Por sua vez, o professor Simão Fernandes considera que o caso levanta uma questão central: a responsabilização pelos prejuízos causados e pelos riscos a que os cidadãos foram expostos.

Outro ponto criticado é a falta de transparência em torno da obra. Segundo as denúncias, não havia no local qualquer placa informativa indicando o valor do investimento, a empresa responsável ou o prazo de execução.

“Que empresa está responsável por esta obra? Tudo isso poderia ser esclarecido se houvesse uma placa informativa no local. Exige-se responsabilidade e fiscalização rigorosa. Estamos a falar de um investimento público de cerca de 40 milhões de kwanzas. Mesmo que fosse um valor inferior, trata-se de dinheiro público e deve ser bem gerido”, afirmou.

Moradores da zona também manifestaram indignação e tristeza diante do ocorrido, afirmando que esperavam uma infraestrutura duradoura que beneficiasse a comunidade.

O cidadão Tiago Paulo relatou que, no momento do desabamento, havia jovens e adolescentes no interior da quadra, incluindo atletas participantes nos jogos escolares.

“É uma vergonha para a província. Havia jogadores vindos de vários pontos do país. Felizmente, não houve vítimas, mas poderia ter sido muito pior”, disse.

A comunidade exige agora esclarecimentos por parte das autoridades e a responsabilização dos envolvidos. Especialistas e agentes locais defendem que os episódios recentes — incluindo as críticas já registadas no campo do Mifuma — devem servir de alerta para a necessidade de maior rigor na execução de obras públicas, reforço da fiscalização e promoção de uma gestão mais transparente dos recursos do Estado angolano.

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